Volta ao Mundo com a Liza – Carta 30 da Liza à GeoStar

 Lago Malawi

Depois de passarmos 3 meses numa África moderna, apesar de insegura, mas com um estilo de vida semelhante ao nosso; um Botswana selvagem; um Zimbábue letrado e culto; uma Zâmbia ocidentalizada, chegamos à África carente que temos no nosso imaginário.
Malawi é o terceiro país mais pobre do Mundo.
Aqui, as crianças brincam com pneus de bicicleta velhos, fazem carrinhos com pacotes de leite, jogam futebol com sacos de plástico enrolados.
Aqui vêm-se meninos sem roupa ou com roupas esburacadas de tão velhas que são.
Aqui, há muitas crianças sem sapatos e barrigas inchadas de má nutrição.
Aqui passasse fome. Quando não é a época do milho ou da manga, não há o que comer. E os ordenados de 4.000 Kwachas (5€) até 100.000 Kwachas (120€) não chegam para alimentar as famílias numerosas.
As ajudas internacionais, em forma de bens, roupa e cadernos, não chegam às populações. O Governo vende o que recebe. E quando por ventura chegam às escolas, os professores guardam as dádivas para eles, para venderem e alimentarem os seus filhos.
A única forma de ajudar é ir diretamente às famílias carenciadas. E mesmo essas, depois de receberem uma vez, à segunda exigem. É comum na rua ouvirem-se crianças a estenderem a mão e a dizerem: “dá-me o MEU dinheiro”. A necessidade faz o engenho.
No entanto, não se ouve falar em suicídios, e quantas razões haveria para chegarem a esse desespero. Mas não, vivem conformados. Não serão Felizes mas também não os vejo tristes nem a reclamar. E ouço muitas gargalhadas. Das crianças, das mulheres a lavar a roupa no Lago, dos homens a remendar as redes de pesca. Depois de um cumprimento, de um simples “give me five” as gargalhadas entoam. Aqui ri-se!
E neste cenário encontramos heroínas.
Enquanto carregam um filho às costas, e por vezes outro na barriga, transportam na cabeça enormes baldes de água, tijolos, fardos de palha… por kms e kms de distância. Lavam a roupa, a louça, limpam a casa, cozinham, sempre com os filhos aconchegados nos lindos lenços africanos, atrás ou à frente quando os estão a amamentar. A mama é a sua maior aliada, o único alimento que podem garantir às suas crias.
As mulheres do Malawi são de uma força extraordinária!
Os homens pescam, por vezes fazem costura, mas são as mulheres que levam a vida para a frente.
O Lago Malawi, declarado em 1984 Património da Humanidade pela Unesco, mais parece um oceano de tão grande que é. E é à volta dele que se concentra a maioria da população. O Lago é a vida. É aqui que tomam banho, lavam a roupa, a louça, pescam, é no Lago e do Lago que vivem.
E é nele que estou a concentrar a minha viagem. Depois de uns dias em Cape Maclear, a zona mais turística do lago, vim passar uns dias a uma aldeia de pescadores, Senga Bay, para testemunhar um dia a dia mais autêntico.
Amanhã vou para uma Ilha no lado de Moçambique mas que pertence ao Malawi, Likoma Island. O Lago faz fronteira com Mocambique. É metade de cada país.
Acredito que estarei uns dias offline. Mas a recolher muitas histórias para partilhar convosco, prometo. Abraço e até lá.

Liza

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