Volta ao Mundo com a Liza – Carta 50 da Liza à GeoStar

Ubud – Bali

E no último dia a terra tremeu.
Eram 6h da manhã quando a cama abanou. Passado meia hora abanou de novo. Levantei-me de súbito mas lá fora a vida fazia-se normal. Apesar dos 4,7 graus de magnitude, estão acostumados a estes fenómenos naturais.
E têm fé!
“O vulcão está a dar sinais de vida” dizem-me.
“É provável nova erupção nos próximos dias.”
Em silêncio pedi à minha estrelinha que me deixasse seguir caminho nessa noite.
E com isso dei início ao meu último dia em Ubud.
Indescritível o que sinto nesta Ilha.
Sinto-me uma pessoa melhor.
O sorriso sai-me do coração a toda a hora nem que seja para dizer apenas um: “No thanks” de cada vez que me perguntam se preciso de táxi ou de uma massage. Mas um não dito a sorrir tem outro sabor.
É impossível ralhar ou ficar aborrecida com esta gente. São de uma amabilidade contagiante.
Ir ao mercado e regatear até ao cêntimo é das minhas ocupações favoritas em Bali.
Para mim e para eles.
Pedem 150.000 rupias. Ofereço 30.000. Baixam para os 100.000. E eu insisto nos 30.000.
“No Mam, can not”.
Aumento a parada para os 40.000. E trago por 50.000 (3,5€).
“For the good luck” dizem-me depois de um abraço e de tocarem com as notas que lhes dou nas coisas que têm à venda para que se vendam também.
Detestam, confessam-me em segredo, a malta que aceita o primeiro valor. É como dizerem: “toma lá que eu posso pagar isso e muito mais”. Negociar faz parte da cultura. E eu levo jeito.
Comer é outro enorme prazer em Ubud. Nunca vi um lugar com tantos restaurantes, cafés, esplanadas, warungs (casas particulares que servem refeições livres de impostos), com aspecto tão confortável e atraente. Apetece ir a todos.
A comida não faz grande diferença. É sempre bem apresentada e deliciosa, bem como os lassis (batido de fruta com iogurte) ou os sumos naturais, servidos sempre adornados com menta ou uma flor. Os preços vão desde os 2€ aos 10€ por refeição.
Sim. Ubud ainda é bastante acessível. Para dormir pode-se ficar por 2€. Mas também se pode pagar 1.000€.
Em Ubud não há crime. Ninguém rouba, mal trata ou manda bocas…
Já tinha saudades de andar na rua, à noite, sem receio de nada. É tão confortável!
E com o calor húmido, sabe pela vida jantar mais tarde, passear um pouco e regressar a casa a caminhar tranquilamente.
Sair de Ubud custa sempre um bocadinho, apesar de saber, que não será a última vez. Sinto-me em paz, sinto-me em casa. E por isso voltarei aqui sempre.
Mas está na hora de outra aventura. De novos desafios. De desejados reencontros.
Para trás fica um dos meus lugares preferidos no Mundo e um vulcão que parece ter acordado de um longo sono.
Abraço de Feliz Natal para todos os que trago e me trazem no coração.
(quando lerem este post já terei saído de Bali)

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 49 da Liza à GeoStar

Ubud – Bali

De repente, as burcas dão lugar a longos e lisos cabelos negros, apanhados com flores, que caem sobre as engomadas camisas bordadas presas nos saris de todas as cores.
Os homens trazem um lenço enrolado na cabeça, que mais parece um chapéu, e vestem igualmente saris nas cerimónias.
Tradicional e único.
O sonoro chamamento para as mesquitas muçulmanas é substituído por silenciosas oferendas aos deuses hindus, com gestos delicados e elegantes.
As estrangeiras trajam calções, tops, mini-saias ou vestidos curtos que compram nos mercados locais.
Os olhares de reprovação ou engate são agora substituídos por sorrisos sinceros, daqueles que saem do fundo da alma e nos fazem rever as nossas habituais atitudes perante os outros.
Todos bebem cerveja sem se esconder.
Chegámos a um Mundo quase perfeito, de confiança, de alegria, de empatia, de liberdade.
Estamos em Bali !!!
Todos temos lugares favoritos no Mundo que representam o Paraíso para nós. Ubud é, definitivamente, um desses lugares para mim.
Depois de 8 meses num continente mais duro, mais desconfortável, onde temos que estar mais alertas, com deslocações intermináveis, onde as águas dos lagos são contaminadas, as doenças frequentes e onde vivem animais selvagens … estava a precisar de relaxar e elegi Bali para descansar.
Pois que, sem saber, e como já vem sendo hábito, cheguei poucos dias antes de um celebração muito importante que se realiza a cada 210 dias.
Nos dias que antecederam as celebrações toda a comunidade se envolveu a decorar as suas ruas.
Cada 3 casas de família constrói um estandarte feito de madeira, bambu, flores e veludo. Os inúmeros templos nas entradas das casas são agora vestidos de gala: cetim branco, preto, amarelo ou vermelho.
Na verdade, toda a cidade está engalanada, todos estão divertidos e felizes e orgulhosos do seu “Galungan day”, pois crêem que os seus entes queridos mortos, neste dia, os vêem visitar e querem recebê-los o melhor possível.
No dia rezam, nos templos de família (em Ubud todas as casas têm templos hindus), e nos templos da cidade. Todos estão de portas abertas para serem visitados gratuitamente.
Mas, ao contrário do que seria de esperar, Bali está vazio. Os sinais de uma iminente erupção do Vulcão Agung, há um mês atrás, levou os Governos a desaconselharem as visitas a Bali. E há quem respeite esses alertas.
Quer isso dizer que vivi um Ubud mais dedicado, com mais tempo, ainda mais sorrisos e muita tranquilidade.
Era tudo o que precisava.
Se tivesse que descrever Ubud numa só palavra seria: harmonia.
Aqui tudo parece estar em sintonia. Crianças e adultos riem à gargalhada e são Felizes. Recebem turistas 12 meses por ano, há dezenas de anos, sem sinais de cansaço. Não é preciso sorrir para receber sorrisos. Tratam bem porque não aprenderam a tratar mal nem querem. Os Balineses gostam de ser assim. E são!
Deixo-vos com algumas imagens deste (meu) paraíso, que apesar de não ter água por perto, é o mais espiritual de todos os meus cantinhos do Mundo, ou não fosse Bali, a Ilha dos Deuses.
(quando lerem este post já terei saído de Bali, por isso, relax e não fiquem preocupados ok?)

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 48 da Liza à GeoStar

AFRICA

Nunca imaginei encontrar o que encontrei em África. Mesmo tendo estado 5 vezes antes no continente a verdade é que, só agora, vivi como os locais.

Para começar, a mentalidade.
Fora África do Sul, que é uma África muito à frente, na maioria dos restantes países africanos, ainda se vive no século passado.

A homossexualidade é proibida.
Como se de uma doença contagiosa se tratasse ou como se alguém escolhesse ser homosexual. Dá direito a multa, cadeia e isolamento da sociedade.

As mulheres não são respeitadas. Tapam-se, da cabeça aos pés, independentemente da religião.
Nuns países são só elas que trabalham. Cuidam dos filhos carregam-nos às costas enquanto lavam a louça, limpam a casa, ou vendem nos mercados.
São elas que caminham kms com enormes pesos na cabeça e as crias às costas.
Eles desfrutam, passam o dia na conversa, comem, bebem, uns senhores.
Noutros paises, porém, é o contrário e as mulheres não podem trabalhar.
Têm que casar, obrigatoriamente, e ficam subjugadas aos salários, vontades e decisões dos maridos.
É o caso do muçulmano Egipto.
Aos homens tudo é permitido, inclusivamente ter tantas mulheres quantas conseguirem comprar e sustentar. Sejam senhoras ou apenas meninas.
“Elas” não têm os mesmos direitos.
E pior, nunca reclamam. Aceitam essa condição. Não conhecem outra, coitadas!

Por outro lado, não imaginava que África estivesse tão preparada para receber viajantes. Cheguei a pensar que só conseguiria atravessar África através de uma empresa com tudo programado.
Mas não.
Fora dois casos de países em conflito interno, que me obrigaram a apanhar voos, consegui atravessar o continente por terra em transportes locais. Claro que com pouco conforto mas não muito diferente de uma Ásia ou América Central.

Esperava também uma África muito mais insegura. Estive sempre alerta, com certeza, mas a verdade é que, na maioria dos países, não senti que me pudessem fazer mal. Antes pelo contrário.
Claro que tentam sempre ganhar mais dinheiro com o “branco”, mas é isso que se passa em qualquer parte do Mundo onde, os turistas, são sempre vistos como gente rica.

E os preços também me surpreenderam. Apesar dos obrigatórios vistos de entrada na maioria dos países, dos tours obrigatórios, como os safaris, os desertos, vulcões e lugares históricos… com vôos, estadias, comida, roupa, e até um telemóvel novo… não saí do meu orçamento que, como sabem, é bastante limitado. Mas consegui!

Desconhecia também que África fosse tão verde, tão montanhosa, tão cheia de água, de lagos e praias maravilhosas.
Tão distinta de país para país e que albergasse das mais bonitas paisagens do Mundo além de um patromónio histórico preciosissímo de tão antigo que é.

Tinha uma ideia, mas não fazia ideia.

E essa ignorância é maravilhosa porque me permite surpreender todos os dias. Porque me faz aprender com cada situação e com cada pessoa com a humildade de quem pouco sabe e precisa de ver para crer.

E por último o clima. Não fazia ideia que em África fizesse tanto frio e chovesse tanto. Claro que andei sempre na melhor época do ano em cada país. Ou no fim das chuvas ou antes do frio. Não porque me programe muito. Mas porque sou sempre aquela sortuda. E o Mundo é muito meu amigo. 

Oh! África! Minha querida África!
És tão dura quanto encantadora!
És tão difícil quão desconcertantemente bela!
És tão genuina quão enigmática!
És tão distinta quão envolvente!
És tão surpreendente quão previsível!

Tatuaste o meu coração com a tua força, com a tua energia, com a tua cor, o teu odor, a tua alma. Obrigada África por me receberes de braços tão abertos que me obrigas a prometer-te: um dia, voltarei!

(Este texto foi escrito com o coração. Daí ser tão extenso. )

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 47 da Liza à GeoStar


Egipto

Estava há muito na minha lista de países prioritários.

Quis a instabilidade do país que adiasse vez após vez esta visita.
Até agora.
As muitas fotos, a bíblia, as lições na escola… nada me fazia imaginar um país assim.
Encontrei mais hospitalidade do que estava à espera.
Senti mais segurança do que contava!
Apesar dos vários check points, ruas fechadas por militares, torres vigia habitadas por homens e armas a verdade é que, andar na rua, é seguro a qualquer hora.
Confirmei o enorme património histórico do país. Ruínas com mais de 5.000 anos de vida, túmulos intactos esculpidos com um rigor arrepiante.
Visitei as maiores, mais antigas e mais extraordinárias construções do Mundo: as pirâmides de Giza, templos e palácios.
Vi as mais antigas Mesquitas de África.
Assisti à extraordinária sabedoria egípcia nas paredes desenhadas e escritas de forma indecifrável, até há poucos anos atrás, todas contando uma história, todas com um significado e com um riquíssimo valor histórico.
Testemunhei algum fanatismo religioso.
Senti na pele o desrespeito pela Mulher, de homens que entendem que, quem viaja sozinha, tem que estar à procura de um marido para casar. Claramente não entendem a independência feminina.
Por vezes, senti-me privada da minha liberdade, sendo sempre o centro das atenções no meio de tantas mulheres acompanhadas e bastante reprimidas.
Cruzei o país mais barato de África e um dos mais baratos de todos os que visitei no Mundo.
Comi, maravilhosamente, comida muito parecida à nossa: iscas, grão, feijão, tremoços, sopa.
Não achei o país deslumbrante, mas gostei das pessoas. E essas são as que fazem a diferença.
Estamos quase quase de partida. Palpites sobre what comes next?

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 46 da Liza à GeoStar

Toda a vida ouvimos falar delas, mas nada nos prepara para o que sentimos quando as avistamos pela primeira vez.

Éramos 4 no carro. Íamos na conversa. Todas de continentes diferentes, tínhamos muito para partilhar. Eu ía atrás, no lugar do meio. E fui a primeira a ficar muda.
Aquela enorme sombra, que parece querer tocar o céu, não é uma sombra. É a mais alta pirâmide do Mundo!
Entre pirâmides, esfinges, estátuas gigantes, túmulos reais… o dia some tão rápido e tão intenso que mais parece que vivemos 3 dias em apenas um.
Giza, onde estão as pirâmides, fica a apenas 30 kms do capital.
Com mais de 22 milhões de habitantes, o Cairo, é o que se diz ser: uma cidade caótica, poluída, cheia de lixo, com prédios escuros, e quente.
Mas é também uma das grandes capitais do Mundo onde me senti mais segura.
A cada 100 mts ouço um “welcome to Egypt” em vez do habitual “cuidado com a carteira/com o telemóvel” que me habituei a ouvir em todas as cidades.
Pode haver um assobio masculino ou um olhar reprovador das mulheres por me verem de ombro destapado.
Mas é compreensível e cultural. Não passa disso.
Gostam de nos ver por cá e se lhes sorrimos perguntam-nos o nome e de onde somos.
E isso fez-me sentir confortável e acolhida, o que, nos dias que correm, não tem preço.
O Museu do Cairo alberga uma riqueza arqueológica única com mais de 5.000 anos de história.
A mais antiga Mesquita Muçulmana de todo o continente Africano está aqui. Bem como uma das mais antigas Igrejas Ortodoxas.
Passear nas margens do Rio Nilo ou navegar nas suas águas é igualmente memorável.
A maioria das pessoas não gosta do Cairo.

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 45 da Liza à GeoStar

Uma cidade deitada nas margens do mais comprido Rio do Mundo, o Nilo, só podia ser uma cidade encantadora.
Luxor é um Museu a céu aberto que alberga alguns dos mais importantes monumentos da História antiga do Egipto.
Karnak o templo com as maiores 134 colunas do Mundo; o Vale dos Reis onde foram encontrados os túmulos de 62 Reis Egípcios, 450 Nobres e Artistas; e outros tantos templos imponentes e majestosos que se encontram nas duas margens do Rio que divide a cidade.
Pode até parecer apenas um conjunto de pedras, o que vão ver nas fotos. Mas se pensarmos que estas pedras têm mais de 3.000 anos, que cada uma delas está desenhada, esculpida, pintada com rigoroso pormenor, temos a noção do valor histórico desta visita.
Por muito que tivesse lido acerca do Egipto, a verdade é que encontrei um país bem diferente do que estava à espera.
Mais organizado, limpo e hospitaleiro, o Egipto, 85% Muçulmano, representa 1/4 da população Árabe Mundial.
Há 7 anos, uma revolução acabou com o Governo de quase 30 anos de Mubarak, mas trouxe-lhes uma profunda crise económica.
Os turistas abandonaram o país e, ainda hoje, recebem menos de 10% do que era habitual.
Os seus mais de 90 milhões de habitantes estão desesperados e por isso abordam-nos na rua a cada 2 metros, para tentar vender os seus serviços.
O interessante aqui, é que nos pedem desculpa, por nos aborrecerem. Honestos, devolvem-nos dinheiro por se terem enganado no troco e oferecem-nos chá e café por os visitarmos.
É um país seguro sem registo de crimes de elevada violência.
O Egipto, um dos mais antigos países do Mundo, é orgulhoso do seu Património e herança histórica e é nesse registo que nos abre os braços e nos envolve numa visita que só pode ser memorável.

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 44 da Liza à GeoStar

Sharm El-Sheikh fez-me lembrar o Algarve em época baixa.
Bastante deserta em ambos os sentidos, na paisagem e no número de pessoas, esta zona de praias está repleta de resorts para todas as carteiras, geralmente no regime Tudo Incluído, com piscina e praia privada.
Entre eles há espaço, muito espaço, e montanhas a cortar o horizonte.
A mistura de mar com montanhas e deserto é interessante.
O mar é quente, transparente e bom para mergulho. A areia é dourada mas não é confortável para estender a toalha, por isso as camas ocupam todo o areal.
Noutros tempos seriam turistas, de todos os cantos do Mundo, a preencher essas espreguiçadeiras de praia. Mas os turistas fugiram do Egipto, pelo que agora apenas os turistas locais e os Russos marcam presença.
As Egípcias, de burca, vão à água vestidas dos pés à cabeça, fazendo-nos sentir o centro das atenções quando entramos na água de biquíni.
As Russas vestem biquíni mas bebem vodka dia e noite. 
Caminhei bastante a pé para tentar ver para além do caminho praia-resort e encontrei uns shoppings com uma mesquitas imponentes ao lado mas nada verdadeiramente característico.
Soube bem passar aqui 3 dias de papo para o ar, ainda mais, em pleno Inverno português. Mas não me encheu as medidas.
Nós, portugueses, e em particular os Algarvios, somos muito exigentes na apreciação de praias ou não albergassemos nós das praias mais bonitas do Mundo. 
Aqui ficam algumas fotos da famosa Sharm El-Sheikh.
Abraço e até ao Cairo.

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 43 da Liza à GeoStar

Pouco depois das 6h já não consegui dormir mais nos sofás do aeroporto. A luz começou a dar-me na cara e o ruído aumentou com o início de um novo dia de aeroporto.
Barulho e luz…está na hora de despertar.
Chegar ao aeroporto do Cairo é muito emocionante e nem o tardar da hora e a falta de sono me desviam da constatação: cheguei a um dos meus países de sonho.
Depois de 7 meses de África profunda, o Egipto parece uma lufada de ar fresco. Mais moderno, aqui todos falam inglês, e sinto-os mais próximos da nossa realidade.
Mais Árabes que Africanos. Mais brancos, por vezes mais feios e mais matreiros. Pela primeira vez na vida, à saída dos wcs, há funcionários a pedir gorjeta. Aldrabar parece estar-lhes no sangue.
Discutem entre eles aos berros quais verdadeiros Italianos. Aprecio e até me revejo.
Este país promete.
Promete muito.
Tanta coisa para ver! Uma gigante revisão às maravilhosas aulas de História a disciplina onde sempre tive a melhor nota.
Já na altura viajava sentada!
Mas ainda não nos ficamos pelo Cairo. Um vôo às 11h da manhã leva-nos ao que será o primeiro destino no Egipto: Luxor, a Sul.
Não sei como se sentem vocês nesta chegada à África do Norte.
Quanto a mim, estou com nervoso miudinho, uma vontade enorme de me atirar à rua e explorar esta cultura milenar.
Deixo-vos com fotos de posters que recolhi entre os aeroportos da Etiópia e do Egipto, nas 20h de viagem até ao novo destino.
Feliz, cheia de pedalada e energia boa, prometo em breve mostrar-vos este maravilhoso país. Boa?
Weeeeeeeee!!!!

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 42 da Liza à GeoStar

Não podia ter escolhido melhor lugar para me despedir da Etiópia nem melhor companhia.
Axum, no Norte da Etiópia, perto da fronteira com o Sudão, é a cidade mais agradável que conheci no país.
Património Mundial da Humanidade, pelas suas ruínas datadas do Séc. XII e XIII, Axum tem muito mais do que ruínas. É uma cidade cheia de cafezinhos apetecíveis com esplanadas, restaurantes tradicionais e ocidentais, ruas empedradas com árvores no centro, lojinhas que vendem de tudo um pouco…um lugar que apetece ficar e explorar.
Cheguei a Axum com a minha companheira de viagem Cochi, uma Israelita com pais Etiópes, que se cruzou comigo quando ia para Lalibela, há duas semanas atrás. A empatia foi imediata e desde então começamos a partilhar tudo, quarto, comida, histórias, tempo, e acima de tudo, muitas muitas gargalhadas.
Em 13 dias fomos a Danakile, a Mek’ele, a Axum e Lalibela. Divertimo-nos muitíssimo, criámos a nossa própria linguagem, os nossos sinais e as nossas piadas.
Quando viajamos, é tudo muito intenso, vive-se cada dia como se fosse uma semana.
Muita coisa acontece a todo o momento, muitas histórias para contar e comentar, muita vida corre em cada 24h de viagem.
E é neste registo intenso que, pessoas com quem passamos uns dias, se tornam amigas para a vida, irmãs de alma, porque pensam como nós, sentem o mesmo que nós, e estão a viver o mesmo sonho que nós.
Não esquecerei estes dias maravilhosos numa Etiópia difícil que se tornou muito mais simples com Cochi, que fala a língua e que comunica particularmente com sorrisos e paciência.
Cochi cativou-me desde o primeiro segundo e depois conquistou o meu coração.
A poucos dias de sair da Etiópia, chegou o momento de me despedir de Cochi. Ela foi para Sul, para viver os últimos dias de uma viagem de 8 meses, antes de regressar a casa.
Eu sigo para Norte, para outro país, para continuar o meu percurso.
Muitas outras histórias por viver. Muitas pessoas maravilhosas para me cruzar.
Sempre com as amigas como Cochi, na minha mochila e no meu coração e grata por me cruzar sempre com as melhores pessoas do Mundo.
Obrigada Estrelinha. Obrigada minha Cochi.

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 41 da Liza à GeoStar

A 120 mts abaixo do nível do mar, Danakil Depression, é uma das 3 zonas mais fundas e menos habitadas da Terra.
O calor é imenso, a qualquer hora do dia e da noite, mas as belezas naturais sobrepõem-se.
Neste imenso deserto de sal, vimos o pôr do sol num lago gigante, tão imaculadamente branco que se confunde com a neve, e tão extenso que o seu fim vai para além de onde os nossos olhos alcançam.
A noite foi passada ao relento, na base militar de Hamedela, um dos poucos lugares com vida. Estamos a 20 kms da fronteira com a Eritreia, com quem a Etiópia tem um longo processo de desentendimento, por isso andámos sempre escoltados.
No dia seguinte visitámos Dallol, onde formações vulcânicas de várias cores, tornam esta zona numa das mais coloridas, misteriosas e interessantes do país.
Fomos ainda a Asebo, onde podemos ver o sal a ser cortado em pedras rectangulares, por homens que trabalham 9h por dia, debaixo de temperaturas que rondam os 40-50 graus centígrados.
A caminho, cruzámo-nos com várias caravanas de camelos que transportam estes blocos de sal para a cidade mais próxima, Mek’ele, para daí seguir para o resto do país. Dezenas de camelos, acompanhados por meia dúzia de homens, caminham 7 dias debaixo de um calor tórrido. Quase desumano!
Em qualquer outra parte do Mundo já teriam trocado os camelos por camiões.
Mas Etiópia quer manter as suas tradições.
Este país tem a capacidade de nos fazer amá-lo e odiá-lo, ao mesmo tempo.
Não está preparado para o turismo e não demonstra querer preparar-se. Tentam extorquir dinheiro a qualquer preço e por vezes maltratam o turista. Não servem bem e não parecem querer mudar.
Todos os dias, a toda a hora, rodeam-nos oferecendo ajuda, sobre a qual pedem sempre dinheiro no fim.
Mas, por outro lado, é indiscutivelmente o país mais autêntico de África, onde as crianças riem à gargalhada com frequência, onde se sentem amadas e acarinhadas e são responsabilidade de toda a comunidade. Onde se vestem, penteam e adornam tradicionalmente. Onde se vê um povo orgulhoso sem intenção de sair daqui ou de mudar seus hábitos.
E isso faz-nos reflectir e aceitá-los tal como são.
Etiópia é tão intensa quanto envolvente e tão cansativa quanto inesquecível.

Liza