Aventuras de uma viajante
Quando cheguei à bilheteira de autocarros para comprar bilhete para Harar (uma cidade muralhada património da humanidade) fui informada de que não havia autocarros a viajar para lá pois o lugar está num género de guerra civil. Agradeci o alerta e desviei a minha rota para o que seria o destino seguinte.
Na margem sul do Lago Tana, o maior Lago da Etiópia e o terceiro maior de África, está a cidade de Bahir Dar. Cheia de palmeiras e jardins, esta refrescante e agradável cidade pintada a verde, é um dos destinos turísticos do país.
Fui recebida pelo dono do meu Hostel, um puto de 27 anos que, desde cedo, se mostrou muito ávido em zelar pela minha segurança. Diz que a cidade está cheia de esquemas, rapazes que, não tendo ocupação e sabendo que são bonitos, tentam meter conversa com as turistas, com o intuito de engatá-las para lhes extorquir dinheiro ou apenas, para lhes vender gato por lebre: um serviço barato a preço de ouro.
De modo que, para me proteger dessas emboscadas, o melhor seria não me distanciar e andar com ele, qual sombra, nos dias que por aqui passasse.
Sedenta da minha liberdade, como sou, a minha primeira ideia foi: amanhã ponho-me a andar daqui. Não tenho necessidade de estar num lugar que não posso sair à rua sozinha.
Fomos ver o sunset nas margens do lago, e o meu suposto protector, começa a tentar dar-me a mão, abraçar-me…fazendo precisamente aquilo que dizia estar a querer proteger-me…
Pu-lo no lugar dele, com a delicadeza dos meus 44 anos, e como não esperava o corte, começou a vangloriar os seus atributos masculinos, o famoso tamanho dos “Etiopianos”, o número de turistas que partem caidinhas por ele, que lhe mandam presentes, que o convidam para visitar os seus países e que não o conseguem esquecer.
Caí na cama, com uma dor de cabeça gigante, pouco depois das 19h da noite sem jantar. Tinha acordado às 3h20 da manhã para iniciar uma viagem de 10 horas, montanha acima-montanha abaixo, com paisagens de uma beleza desconcertante, mas que, pela altitude, deixou todos passageiros meio atordoados.
Depois a recepção, amedrontadora, não ajudou.
No silêncio da noite perguntei ao meu coração se devia seguir caminho no dia seguinte ou dar uma oportunidade à cidade. E optei pela segunda. De manhã saí sozinha, para espanto do meu anfitrião, que estava prontinho para ser o meu guardião.
Vi, de facto, dezenas, se não centenas, de jovens desocupados, bem parecidos, engomado e cheirosos, sentados nas esplanadas, margens do lago ou nos jardins, com ar de quem espera a melhor oportunidade para lançar o seu isco.
Mas, como em qualquer parte do Mundo, o remédio é não lhes dar conversa, sorrir, e seguir caminho. Não me senti ameaçada mas também não me senti confortável. E por isso decidi que seguiria caminho no dia seguinte.
Finalmente, explorei Bahir como eu gosto de fazer, sozinha, a percorrer ruas a pé, sentada nas esplanadas a ver como se comportam os locais, e a registar tudo no meu diário. Mas não me estendi demasiado. O Mundo é imenso e maravilhoso para nos demorarmos em lugares menos hospitaleiros.
Estas são histórias comuns de quem viaja, particularmente, sozinha! E o desafio é sabermos lidar com elas sem prejudicar os objectivos da viagem.
Seguimos caminho para um lugar que é património da humanidade. Preparados!?
Liza