Volta ao Mundo com a Liza – Carta 33 da Liza à GeoStar

Quénia
As eleições realizadas há 15 dias, tendo provocado alguns tumultos, deixaram o país de fora na lista de muitos viajantes.
Eu acredito que o Mundo é um lugar seguro e por isso atravessei o país. Não me demorei muito, mas visitei alguns lugares. E gostei do que vi e do que senti!
Nairobi, a capital, é considerada a cidade mais moderna do Leste Africano, a mais movimentada e a mais perigosa.
À excepção do perigo (pois não senti nenhum), foi isso que encontrei, uma cidade moderna, com jardins cuidados e agradáveis e muitos pássaros gigantes (tipo pelicanos) a enfeitar as árvores e os céus.
Cruzei-me com gente simpática, de sorriso fácil, cheirosa e bem vestida.
Caminhei kms, deixei-me perder nas ruas e descobrir lugares que não constam dos guias.
De Nairobi segui para Kisumo, uma cidade nas margens do Lago Victória, o segundo maior lago de água fresca do Mundo, que faz fronteira com 3 países: Tanzânia, Uganda e Quénia.
Também aqui me senti bem recebida e gostei da cidade!
E tive oportunidade de perceber um pouco melhor o que se passa entre as duas tribos dominantes, Bantu e Luo.
Cada uma tem o seu partido favorito e não aceita a derrota, criando tensão e até alguns conflitos físicos entre eles. Mas é entre eles. Os estrangeiros estão a salvo e são bem vindos por todos.
À parte destas questões eleitorais e tribais, achei o Quénia um país bem resolvido e feliz!
Estamos já a caminho do Uganda.
Uganda e Ruanda não constavam do plano inicial, mas é esta a magia de viajar com tempo: os planos são apenas um esboço que vou alterando à medida que falo com outros viajantes.
E isso, isso não tem preço.
Estou tão expectante… E vocês? 

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 32 da Liza à GeoStar

Old Moshi, Kilimanjaro, Tanzania

Custa sempre deixar um paraíso para trás mesmo quando sabemos que nos espera outro paraíso.
A viagem de barco, de Zanzibar a Ushongo, não foi tranquila. Chovia, o céu estava escuro, e as ondas eram de tempestade.
Mas 4 horas depois, ali estava eu, na costa norte da Tanzânia.
A praia não se compara com as praias da Ilha. Areia mais escura, água turva, mas muitas palmeiras e muito verde, mais tranquila e sem turismo.
O Kilimanjaro, a maior montanha de África, era a paisagem que nos aguardava a seguir.
Moshi, a cidade onde é possível avistar o cume, recebeu-me de braços abertos, num Hostel ao nível dos Ocidentais, ocupado por viajantes super interessantes e cheios de histórias para contar.
Pena que o tempo, sempre nublado, não me tenha permitido ver o grande Kilimanjaro.
Tanzânia foi um país que me tocou bastante! Tem tudo o que precisa para receber bem.
As pessoas são agradáveis e têm bom fundo.
São modernos sem perderem as tradições.
A influência de vários continentes, enriquece a culinária e os hábitos, tornando o país ainda mais acolhedor.
Já cruzámos outra fronteira mas com a Tanzânia no coração. Até já!

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 7 da Liza à GeoStar

Em destaque

 

“Ver o “Invictus” no vôo que me trouxe a África do Sul foi emocionante. É um filme sobre a vitória da equipa Sul Africana sobre a favorita Neozelandesa, no Campeonato do Mundo de Rugby em 1995, quando Nelson Mandela se torna Presidente da África do Sul e luta por transformar um país fragmentado num país unido.
Joburg (como lhe chamam os seus habitantes) nasceu apenas há 150 anos quando, em 1886, se descobriu a maior jazida de ouro do Mundo. Situada a 1.700 metros acima do nível do mar, é uma das cidades mais altas do Mundo.
Em 1948 o Partido Nacional, constituído por um grupo de brancos, assume o poder e cria uma política de segregação social, o Apartheid, que prevaleceu até 1994, altura em que Nelson Mandela é eleito Presidente.
Mandela trouxe esperança a África do Sul e transformou a sua bandeira na mais colorida do Mundo: o Verde da agricultura, o Amarelo do ouro, o Vermelho do sangue, o Branco das pessoas brancas e o Preto das pessoas pretas, o Azul do céu e dos 2 oceanos que banham o país.
Joanesburgo não é bonita nem segura mas tem uma história que nos envolve e provoca sentimentos fortes.

Liza”

Portanto deve procurar ajuda junto do seu médico, especialmente homens, consegue atingir uma ereção satisfatória e bastante prolongada. Você pode verificar isso mesmo, a linha de produtos propriafarmacia contém o composto ativo do Cialis e por isso é que o efeito é exatamente o mesmo. Isso pode causar danos significativos ao seu organismo, estes podem incluir dor nas costas, se tiver problemas de coração ou dores no peito, assim que o Kamagra no Levitra entra na corrente sanguínea. Se actualmente sofre de problemas oculares, antes 40-60 minutos do ato sexual lentamente mastigando a pílula, é muito mais fácil tomar, falar com um profissional de saúde mental ajudará a abordar questões de estresse.

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 31 da Liza à GeoStar

Ilha e Norte Malawi

Chegar à Ilha de Likoma é como atracar num novo país. As verdejantes montanhas de Moçambique recortam o horizonte. Está tão perto que quase consigo sentir o cheiro. E Moçambique cheira a casa.
A Ilha está realmente isolada. É quase em Moçambique mas pertence ao Malawi e conta com apenas dois barcos por semana para levar e trazer pessoas e bens.
Por isso mesmo os seus habitantes são mais autênticos e menos habituados aos estrangeiros.
Num dos passeios a explorar a Ilha, caminhava eu rodeada de crianças, e estas gritavam “Azumgo, azumgo”.
Perguntei a um senhor o que significava essa palavra e ele disse-me que significava “Bom Dia”.
Então eu comecei a “cumprimentar” toda a gente com quem me cruzava com um “Azumgo” e um acenar amigável.
De facto, via as pessoas espantadas e a rir e eu achei que seria por eu estar a cumprimentá-las no seu dialeto.
Quando regressei ao Hostel percebi que, afinal, Azumgo quer dizer “Pessoa Branca”… Daí as risadas… 
Depois de alguns dias, de puro descanso, numa Ilha religiosa, onde tive o privilégio de assistir a verdadeiras missas Africanas cantadas e dançadas, vim então para terra, mais a norte, mas ainda nas margens do Lago.
Nkhata Bay é outra vila piscatória, rodeada de colinas e recortada por várias bahias, que lhe dão um charme tropical muito especial.
E daí continuei o meu caminho para Norte, desta vez para as montanhas.
Livingstónia parece a Escócia.
A sua construção, em tijolo laranja, de todas as casas e edifícios públicos, conferem-lhe alguma sofisticação.
A apenas uma dúzia de kms do Lago, as vistas dos seus 1.000 mts de altitude, são deslumbrantes.
De repente, parecem vistas de mar, não fosse, em dias de céu limpo, ver-se Moçambique na outra margem.
Nesta Passagem pelo Malawi, estive quase sempre offline, o que me obrigou a estar mais tempo com pessoas extraordinárias, de vários cantos do Mundo, com histórias de amor e de vida incríveis.
Essas estão registadas no 15º diário e na minha mochila de memórias.
Levo um misto de sentimentos deste Malawi e do seu povo. Não os achei transparentes nem me tocaram o coração.
Estou por isso pronta para nova aventura num país muito desejado: a Tanzânia.
Tanta coisa linda nos aguarda…
Estão preparados? 

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 30 da Liza à GeoStar

 Lago Malawi

Depois de passarmos 3 meses numa África moderna, apesar de insegura, mas com um estilo de vida semelhante ao nosso; um Botswana selvagem; um Zimbábue letrado e culto; uma Zâmbia ocidentalizada, chegamos à África carente que temos no nosso imaginário.
Malawi é o terceiro país mais pobre do Mundo.
Aqui, as crianças brincam com pneus de bicicleta velhos, fazem carrinhos com pacotes de leite, jogam futebol com sacos de plástico enrolados.
Aqui vêm-se meninos sem roupa ou com roupas esburacadas de tão velhas que são.
Aqui, há muitas crianças sem sapatos e barrigas inchadas de má nutrição.
Aqui passasse fome. Quando não é a época do milho ou da manga, não há o que comer. E os ordenados de 4.000 Kwachas (5€) até 100.000 Kwachas (120€) não chegam para alimentar as famílias numerosas.
As ajudas internacionais, em forma de bens, roupa e cadernos, não chegam às populações. O Governo vende o que recebe. E quando por ventura chegam às escolas, os professores guardam as dádivas para eles, para venderem e alimentarem os seus filhos.
A única forma de ajudar é ir diretamente às famílias carenciadas. E mesmo essas, depois de receberem uma vez, à segunda exigem. É comum na rua ouvirem-se crianças a estenderem a mão e a dizerem: “dá-me o MEU dinheiro”. A necessidade faz o engenho.
No entanto, não se ouve falar em suicídios, e quantas razões haveria para chegarem a esse desespero. Mas não, vivem conformados. Não serão Felizes mas também não os vejo tristes nem a reclamar. E ouço muitas gargalhadas. Das crianças, das mulheres a lavar a roupa no Lago, dos homens a remendar as redes de pesca. Depois de um cumprimento, de um simples “give me five” as gargalhadas entoam. Aqui ri-se!
E neste cenário encontramos heroínas.
Enquanto carregam um filho às costas, e por vezes outro na barriga, transportam na cabeça enormes baldes de água, tijolos, fardos de palha… por kms e kms de distância. Lavam a roupa, a louça, limpam a casa, cozinham, sempre com os filhos aconchegados nos lindos lenços africanos, atrás ou à frente quando os estão a amamentar. A mama é a sua maior aliada, o único alimento que podem garantir às suas crias.
As mulheres do Malawi são de uma força extraordinária!
Os homens pescam, por vezes fazem costura, mas são as mulheres que levam a vida para a frente.
O Lago Malawi, declarado em 1984 Património da Humanidade pela Unesco, mais parece um oceano de tão grande que é. E é à volta dele que se concentra a maioria da população. O Lago é a vida. É aqui que tomam banho, lavam a roupa, a louça, pescam, é no Lago e do Lago que vivem.
E é nele que estou a concentrar a minha viagem. Depois de uns dias em Cape Maclear, a zona mais turística do lago, vim passar uns dias a uma aldeia de pescadores, Senga Bay, para testemunhar um dia a dia mais autêntico.
Amanhã vou para uma Ilha no lado de Moçambique mas que pertence ao Malawi, Likoma Island. O Lago faz fronteira com Mocambique. É metade de cada país.
Acredito que estarei uns dias offline. Mas a recolher muitas histórias para partilhar convosco, prometo. Abraço e até lá.

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 20 da Liza à GeoStar

Foi na Costa Selvagem de África do Sul que conheci esta linda História de Amor: Estavam em Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, quando se conheceram. Tal como acontece com centenas de viajantes diariamente decidiram viajar juntos até outra cidade. A Maria adoeceu, com problemas de estômago tão fortes, que a deixaram incapacitada de andar pelo próprio pé. O Mário levou-a ao Hospital, pagou-lhe as contas, cuidou dela, não a largou! Na altura, a Maria tinha um namorado Austríaco, que também tinha conhecido a viajar, e por isso, a Maria e o Mário ficaram apenas bons amigos. O Mário continuou viajando e a Maria voltou para Israel, para o seu trabalho, mas por pouco tempo. A sua alma de viajante queria voar. Decidiu ir então para a Áustria visitar o namorado e viajar com ele. Depois de duas semanas juntos, percebeu que afinal não encaixavam, pelo que terminou a relação. Decidiu comprar um voo para o Nepal, para o dia 6 Junho, e quando o fez, enviou um email ao seu amigo viajante, o Mário, a dizer que ia voltar à viagem. Coincidências da vida, o Mário tinha acabado de comprar um voo para Katmandu, a capital do Nepal, para dia 9 Junho. Escolheu o Nepal apenas porque era o destino com o voo mais barato no momento e ele estava verdadeiramente triste por não ter conseguido um visto para o Irão, o qual lhe foi negado 3 vezes. Encontraram-se então no Nepal, nestes dias no início de Junho, e viajaram juntos. Os dois agora livres começaram a envolver-se. Passaram tempos maravilhosos no Lago de Pokhara, no Nepal, fizeram caminhadas de dias pelas montanhas e deixaram o Amor crescer. No fim da viagem, o Mário foi com a Maria para Israel, e aí viveram por 2 anos. Decidem depois mudar-se para a Suíça, onde casaram, numa cerimónia simples, com meia dúzia de amigos. O Mário é especialista em mecanismos de sobrevivência em condições de risco extremo. Do nada consegue arranjar comida, abrigo etc. Então construiu um Iglô na alta montanha Suíça, para a Lua de Mel. Com duas mochilas carregadas de comida e agasalhos, estes viajantes passaram a Lua de Mel numa casa feita de Gelo para celebrar este Amor. Hoje têm uma filha de ano e meio, e aguardam o segundo filho, desta vez rapaz. Com a filha, vão para todo o lado! Fazem caminhadas de horas, ensinam-na a comer de tudo e a falar 3 línguas (hebraico, alemão e inglês). Super sociável, a Mariane é linda, de caracóis castanhos e olhos verdes escuros. Feliz com e como os pais! Juntos há 10 anos, a Maria e o Mário transpiram paixão. O Mário é o pai mais envolvido que conheci até hoje. É ele que trata da Mariane, dá banho, comida, põe a dormir, ensina-a e brinca com ela. A mãe está grávida e só responde se a Mariane pede. Diz que não tem inveja da relação da filha com o pai e que ele, pai, sabe fazer tudo tão bem quanto ela. E tem razão. Neste momento estão de férias. Ambos trabalham na Suíça, têm bons empregos e bons ordenados. Mas a sua alma de viajantes está-lhes estampada na cara e nas acções. Deliciam-se com as minhas histórias de viajante e dizem-me que nasci para inspirar pessoas! Quando o filho nascer, quem sabe, voltam à estrada e à viagem pura e dura, como eu! Que casal maravilhoso este. Que atitude positiva, relaxada e Feliz! Neste país, abençoado pela natureza, tenho conhecido as mais lindas histórias de vida, pessoas bonitas e interessantes, com quem tenho partilhado tempo e vivido experiências que me ficarão para a vida. Viajar é isto. E é para isto que viajo. Deixo-vos com as fotos da Costa Selvagem, provavelmente, uma das zonas mais bonitas da Costa Sul Africana. Espero que gostem.

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 9 da GeoStar à Liza

Olá Liza!

E assim de repente… Já estás em viagem há 2 semanas e já andaste por Joanesburgo, Suazilândia, Cidade do Cabo :)

E então está a corresponder às expectativas?
Que balanço fazes? Como são os teus dias?

Desculpa tantas perguntas, mas a curiosidade é muita! ;)

Por aqui está tudo bem, a Primavera chegou e os dias estão maiores :)
Beijinho e até já,

Raquel

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 8 da Liza à GeoStar

No Reino da Suazilândia
Situado entre África do Sul e Moçambique, está o mais pequeno país no hemisfério sul e um dos mais pequenos do Mundo, a encantadora Suazilândia.
As 5 horas de caminho entre Joanesburgo e a capital da Suazilândia são um crescendo de paisagens lindas com as montanhas Swazi a ganhar em poder e magnitude as planícies Sul Africanas.
Também na fronteira se percebe bem onde estamos. Os Sul Africanos mais agressivos contrastam com a hospitalidade e os sorrisos Swazi. Serão necessárias várias gerações para apagar os ódios provocados por tantos anos de segregação racial nos corações Sul Africanos.
O povo da Suazilândia é de uma amabilidade surpreendente. São doces, acolhedores e educados. E apesar de estarem “entalados” entre dois grandes, Moçambique e África do Sul, são muito bem resolvidos, orgulhosos do seu país e da sua cultura.
A Suazilândia é um dos últimos Reinos de África e viveu em regime absolutista até 1992.
Sociedade poligama, o Rei actual tem 13 mulheres e o anterior tinha 65 e 260 filhos. Cada homem pode ter tantas mulheres quantas puder comprar. Cada virgem custa 17 vacas. Quem não tem vacas suficientes casa só com uma mulher e não virgem.
As mulheres não gostam de partilhar o seu marido com outras mas não podem mudar o que vem desde os seus ancestrais.
Curioso como pode a poligamia conviver tão bem com o Cristianismo. A religião predominante é a Cristã. Conhecem bem Portugal pelas peregrinações a Fátima.
Numa visita a uma típica Vila Swazi, aprendi estes e outros pormenores da sociedade. Concorde-se ou não com a sua forma de viver, não deixa de ser interessante que algumas tradições se mantenham intactas numa era de tanta mudança.
Esta típica Vila, conta ainda com uma maravilhosa queda de água rodeada de floresta e alguns animais. Conheci alguns macacos atrevidos, esquilos, pássaros e muitas borboletas. A caminhada, por entre vales e florestas, para lá chegar foi outra aventura memorável.
Subir à montanha mais alta ou visitar outros pontos do país são programas que estão a alguns minutos de carro ou a pé. É a vantagem de visitar um país com esta dimensão.
Voltamos a ver-nos novamente em África do Sul, na cidade costeira de Durban.

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 26 da Liza à GeoStar

BOTSUANA – Chobe

A nossa última paragem no Botswana não podia ser mais autêntica.
Kasane é uma pequena vila que dá acesso ao Chobe, um dos principais Parques do Botsuana, famoso por concentrar centenas de milhares de elefantes.
Esta zona é também conhecida por congregar as fronteiras entre 4 países: Namíbia à esquerda, Zâmbia em cima, Zimbábue à direita e Botsuana em baixo. Estas fronteiras são feitas pelos rios Zambeze e Chobe.
A região é bastante turística com Resorts nas margens do Rio Cuando a praticar preços muito acima do meu orçamento.
Depois de muito pesquisar, perguntar aos locais, ler guias, acabei por saber de um Hostel aqui na região, com dormitórios a preços Europeus, mas acessível para mim.
Boa! Assim posso ir.
O hipotético Hostel, é basicamente onde vive uma malta local tendo feito de uma das salas 3 dormitórios de duas camas cada. 3 corredores com camas. Lençóis não são mudados há séculos e sem água corrente.
Portanto, o duche é de balde de água fria, e o resto também.  Até para lavar os dentes é preciso tirar água do reservatório. Recuei uns anos no tempo.
A cozinha é na rua, o fogão no chão. O lava louça, dois alguidares com água suja. O pateo, de terra laranja, tem umas zonas de convívio interessantes, como um bar em cima de uma árvore cujos bancos são bidons de gasolina, outra com bancos de um comboio antigo.
Pena que esteja tudo de tal modo sujo que a idéia de me sentar aí tenha ficado apenas nisso, numa idéia.
Dizia-me hoje uma visita: “Deves ser das únicas turistas que fica a conhecer verdadeiramente como se vive no Botsuana. Andaste nos nossos transportes, acampaste, ficaste nas nossas casas, comeste a nossa comida com as mãos. Os ricos que ficam nos resorts vivem numa bolha. Não fazem ideia do que é África.” Verdade, agora que sei como moram, estou pronta para ir embora. 
O mais interessante deste lugar é que não posso sair dos portões sozinha. É muito perigoso. Não porque alguém me possa fazer mal, mas porque estamos tão perto do Parque que encontrar elefantes, búfalos e até leões nas redondezas, é comum.
Fiquei por isso apenas o tempo necessário para visitar o famoso Chobe, ver mais elefantes do que alguma vez tinha visto, búfalos, crocodilos, impalas…. e cruzar a fronteira para um dos 3 países à volta. Alguém adivinha qual?

Liza

Volta ao Mundo com a Liza – Carta 25 da Liza à GeoStar

BOTSWANA – Delta Okavango

Sabem aquelas séries da BBC, sobre a vida selvagem, com paisagens de cortar a respiração, girafas, elefantes e crocodilos?
Pois é precisamente aí que eu estou.
Delta do Okavango. Um dos maiores Deltas do Mundo que morre no deserto do Kalahari e não no mar. Este Delta, nos meses secos de Verão, Dezembro a Fevereiro, está seco. Não tem água, não tem vegetação, não tem animais. Mas com a nossa sorte, visitamos o famoso Delta na melhor época, podendo navegar o Delta cheio de água, de vida selvagem e de espectacular vegetação. O silêncio, a paz, a tranquilidade deste lugar é indescritível. Apetece prolongar a estadia.
Um Safari na única zona reservada da região, o Parque Moremi, veio completar a experiência de estar perto de animais selvagens, no seu habitat natural, e sentir aquele frio na espinha por estar a realizar sonhos que são partilhados por tantos de nós.
Nestas paragens conheci gente muito interessante. Um Alemão a viver na Austrália, que fez uma viagem a unir os polos, da Noruega a África do Sul, e ficou a viver 8 anos aqui no Botsuana. De vez em quando vem cá fazer umas temporadas de trabalho e viagem.
A família do Zimbábue, os pais com a minha idade e duas meninas de 12 e 14 anos. Saíram do Zimbábue antes da loucura politica estalar. Há mais de 20 anos que não regressavam a África. Hoje vivem, muito bem, na Tailândia. Não querem voltar ao Zimbábue e nem gostam de falar no país. A dor está-lhes estampada no olhar.
E o Justin, um Homem incrível. Nasceu no Zimbábue e tinha uma reserva enorme, com vida selvagem, onde se faziam Safaris. Quando o Presidente Robert Mugabe chegou ao poder, e retirou as propriedades de todos os brancos, perdeu tudo. Absolutamente tudo. Até a identidade. Apesar de ter nascido no Zimbábue, como a mãe é Inglesa, retiraram-lhe a nacionalidade Zimbabuana. Uma vida…
Justin nunca saiu de África. Arregaçou as mangas e começou a trabalhar nas Reservas dos outros. Hoje é o Líder de uma enorme pesquisa de vida selvagem, promovida pela Universidade de Oxford, e considera-se muito afortunado por isso. Nunca mais teve casa própria. Vive em tendas, nas reservas onde trabalha. E diz que, quando perdeu tudo, nunca imaginou hoje estar tão bem.
A esposa mudou-se para Inglaterra porque tem mais trabalho, é enfermeira, e teve um cancro. Europa é melhor para ela. Vivem juntos 2 meses por ano. Justin sabe que um dia vai ter que se mudar para lá, para ali envelhecer. Mas enquanto puder, fica no Continente que lhe enche o coração.
Justin não sente mágoa. A nostalgia é-lhe disfarçada por um olhar vivo e alegre: “Sabes Liza, o Mundo não pára porque algo terrível nos acontece. A Terra continua a girar todos os dias. Cada um prossegue a sua vida. Por mais horrível que seja a nossa realidade, a vida contínua. E é assim que tem que ser. Temos que levantar a cabeça e seguir em frente, sem rancor e sem olhar para trás. Amanhã, é sempre uma nova oportunidade de recomeçar.”
Estas lições de vida, contadas na primeira pessoa, mexem muito comigo. Podia ser qualquer um de nós. Como podia ser um de nós a ter perdido a vida nos fogos horríveis que destroem Portugal e nos fazem ser razão de chacota põe este Mundo fora.
A verdade é que, enquanto uns se queixam sempre de qualquer coisa, outros dariam tudo o que têm para estar vivos. E isso, isso é uma verdade que não podemos nunca perder de vista.

Liza